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Notícias

Isolamento social

09/05 - 00:00

O que vamos aprender?


O escritor e psicanalista Christian Dunker, em seu livro “Reinvenção da Intimidade -Políticas do Sofrimento Cotidiano”, descreve no artigo “Solidão e Solitude: A Dimensão trágica do Sofrimento”, sentimentos dos quais certamente podemos nos identificar neste momento de pandemia:
“O temor da solidão é o temor do deserto e o temor do desterro. A maneira mais simples de reencontrar a própria solidão é a viagem solitária... Preciso do outro, mas não absolutamente”.
A maioria das pessoas faz referência à solidão. Independente da condição de estar só ou não, fala-se em solidão em meio à multidão, solidão a dois, sentimento de não pertencimento.
O aglomerado das grandes cidades ameniza para muitas pessoas este sentimento de se sentir só e para outros reforça a sensação de “peixe fora d’água”.
Mas, e quando somos obrigados a nos isolar, como agora? Será que alguém já tinha imaginado esta situação, num tempo onde a frase mais corriqueira era “Não tenho tempo”.
Quantas vezes usamos este argumento para adiar encontros, projetos pessoais e às vezes até fica evidente um sentimento de vaidade, de importância das atribuições diárias e necessárias e de como temos controle das nossas vidas.
O isolamento social nos trouxe um pouco de humildade, no mínimo, mesmo que não nos acrescente grandes modificações internas, descobrimos que não temos controle nem do tempo, e nem mesmo da nossa sobrevivência.
O planejamento do futuro tornou-se levemente obscuro. As certezas, abaladas, vieram acompanhadas de uma angústia necessária à saúde mental, apesar de algum sofrimento que isso possa causar.
A viagem dentro das nossas próprias casas nos fez descobrir armários e gavetas com fotos soltas em preto e branco de familiares e amigos, roupas que não mais usamos, o sabonete guardado em meio a lembranças e já sem perfume.
Descobrimos que nossa falta de tempo não só nos distanciou das pessoas, como de nós mesmos. Descobrimos com nossos objetos como nos modificamos sem perceber, inclusive da passagem do tempo.
Das janelas dos apartamentos vimos as ruas se esvaziarem de carros, de buzinas, de pessoas e perdemos, um pouco e novamente, a noção do tempo, dos horários de pico, do silêncio completo da noite. Descobrimos que o prédio do outro lado da rua recém construído já está todo habitado e à noite fica com seus cômodos iluminados, com sombras de pessoas em seus rituais domésticos.
É neste silêncio e neste momento de introspecção que observamos, o que antes não era do nosso interesse.
Se aproveitarmos este momento da escassez de estímulos, poderemos aproveitar os nossos sentidos, sempre tão pouco explorados, e ouvir, enxergar, saborear e tatear mesmo nas nossas memórias o que o desgaste do dia a dia nos impede.
Tudo passa, como diziam os mais sábios, mas tomara que resguarde um pouco da importância de dar sentido ao que gradativamente vínhamos perdendo.
Num despertar, de semanas atrás, ainda amanhecendo pude ver um bando de passarinhos que se esbaldavam, num jardim instalado no telhado de uma clínica vizinha.
A rua estava deserta, nenhuma pessoa, nenhuma voz humana, só o barulho dos passarinhos acordando. Neste momento senti o meu coração leve e veio um sentimento momentâneo de entender um pouco do que se passava. Pensei: Ehhhh! Parece que a natureza nos pediu uma trégua!


Cláudia M. C. Avelar

Assistente Social – AMMP SAÚDE